Cícero Cattani
09 out 2018

PT vai descolar Haddad de Lula e deve reduzir visitas à PF em Curitiba; Haddad agora é Haddad

Sérgio Roxo, O Globo – 

Depois de usar a vinculação com o ex-presidente Lula para transferir votos para o candidato Fernando Haddad , o PT vai trabalhar para descolar a imagem dos dois ao longo da campanha no segundo turno . Em entrevistas e no programa eleitoral serão destacadas a personalidade e características pessoais de Haddad. Até as visitas a Lula, que está preso na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba, desde abril, podem ser revistas. Dentro da estratégia para o segundo turno, nesta segunda-feira, a coordenação da campanha aprovou mudanças no plano de governo para tentar atrair o apoio de Ciro Gomes (PDT).

O petista já fez 15 visitas ao ex-presidente, cinco delas como candidato. A vinculação entre o presidenciável e o seu padrinho político foi a tônica da etapa inicial da eleição. Nas primeiras atividades de rua, Haddad chegou a citar o nome de Lula uma vez a cada 22 segundos . Também costumava se apresentar aos eleitores vestindo camisetas com o nome ou a imagem do ex-presidente.

– O Haddad chega no segundo muito como a substituição do Lula. Agora o Haddad do segundo turno é o Haddad – resumiu o senador eleito pela Bahia Jaques Wagner, que passou a integrar a coordenação da campanha nesta segunda-feira.

Na visita desta segunda-feira, o líder petista liberou Haddad e disse que ele não precisa se preocupar em encontrá-lo toda semana. A reunião teve momentos tensos, quando foram discutidas estratégias para a campanha.

Na noite de domingo, logo após a confirmação da passagem ao segundo turno, aliados de Haddad diziam ter esperança de que o candidato ganhasse o aval de Lula tanto para ter mais autonomia para se apresentar ao eleitor como para definir os rumos da campanha. Segundo Wagner, porém, não haverá uma desvinculação completa de Lula.

– Não vai descolar nunca. Tem um primeiro momento que foi o da transferência (de votos), que teve a gratidão ao que presidente (Lula) fez. Agora, ninguém vive só do que que foi. Numa eleição se vive fundamentalmente do que vai ser. É hora de o Haddad dizer o seu programa de governo.

Na segunda-feira, Haddad visitou Lula em Curitiba, mas, ao contrário do que vinha fazendo, não deu entrevista na frente da Polícia Federal. O PT reservou uma sala num hotel da capital paranaense para que ele falasse com os jornalistas. Ao ser indagada se as idas semanais a Curitiba continuarão no segundo turno, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, eleita deputada federal pelo Paraná, respondeu:

– Não vemos problema nenhum em consultar (o Lula). Nem o Haddad vê. Vai depender muito da dinâmica da campanha. Temos agora menos de 20 dias (de campanha). Eu não sei qual vai ser o tempo, a disposição, as condições para que nosso candidato possa conversar com o ex-presidente. Se for possível, ele vai. Se não, vamos fazer campanha. Nós já temos a linha da campanha.

Além de se descolar de Lula, Haddad ainda viu a coordenação da campanha aprovar na segunda-feira a retirada de um dos pontos de programa de governo que, segundo aliados, não lhe agradava: a proposta de formulação de uma nova Constituinte. A mudança será usada como arma para atrair a adesão de Ciro Gomes no segundo turno. No final do primeiro turno, o candidato do PDT chamou a proposta de constituinte do PT de “violência institucional”.

Na segunda-feira, o presidente do PDT, Carlos Lupi, disse que a adesão de Ciro a Haddad será “crítica”, sem participação ativa na campanha petista. Já o PT planeja contar com o apoio integral de Ciro. Dirigentes falam, inclusive, em dar ao pedetista uma papel de destaque na coordenação da campanha no segundo turno.

Na segunda-feira, o filósofo Mangabeira Unger, professor da Universidade de Havard e espécie de guru de Ciro, visitou o candidato petista em um hotel da Zona Sul de São Paulo, onde o comando da campanha se reunia. Pela manhã, Wagner conversou com Cid Gomes, irmão de Ciro e senador eleito no Ceará.

– É uma pessoa importante – disse Wagner, sobre a participação de Ciro na campanha petista.

Na reunião dos coordenadores petistas na segunda-feira, foi discutida também a necessidade de o comando da campanha ter mais liberdade de ação, sem necessidade de que as decisões estrategias tenham sempre o aval de Lula. Um dos coordenadores diz que, como o ex-presidente está preso, não consegue sentir com exatidão a temperatura das ruas.

No segundo turno, os petistas planejam intensificar a desconstrução de Bolsonaro, com a exploração de atitudes concretas do adversário contra os direitos da população mais pobre. Uma das passagens que deve ser explorada é a sua votação contra a Lei das Domésticas na Câmara.

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