Cícero Cattani
28 out 2018

Na véspera de eleição, diminui vantagem de Bolsonaro em relação a Haddad, indicam pesquisas Números correspondem aos levantamentos do Ibope e Datafolha liberados neste sábado O Globo

O Globo –

Na eleição com os ataques mais virulentos e a retórica mais inflamada desde 1989, os brasileiros vão às urnas neste domingo para escolher um novo presidente que terá o desafio de conduzir reformas fundamentais na economia e pacificar um país altamente polarizado, reafirmando a solidez da democracia brasileira.

A diferença entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que chegou a ser de 18 pontos, voltou a cair nas pesquisas Datafolha e Ibope, o que indica uma disputa mais acirrada do que se previa há apenas dez dias. O capitão reformado lidera com uma dianteira de dez pontos, segundo o Datafolha, e de oito pontos, de acordo com o Ibope.

O resultado dá novo fôlego aos petistas, que nos últimos dias lançaram uma campanha para “virar o voto” de conhecidos, e também de desconhecidos, e que deve se intensificar até o fechamento das urnas, às 17h de amanhã. No campo bolsonarista, a determinação é reforçar para os seus eleitores que nada está ganho e que todos devem comparecer para votar amanhã e se manter de prontidão.

IAs três semanas desde 7 de outubro intensificaram uma polarização que no primeiro turno já havia sido a maior das eleições brasileiras desde a redemocratização. O capitão reformado retomou com ainda mais força o discurso antipetista e antiesquerdista e chegou a anunciar, numa transmissão para milhares de apoiadores na Avenida Paulista, que “esses marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria”. O petista também atacou o adversário de forma incisiva, classificando-o de “soldadinho de araque que vomita intolerância”. O ex-presidente Lula, preso em Curitiba e figura onipresente em sua campanha no primeiro turno, saiu completamente de cena, assim como o vermelho do PT, que deu lugar ao verde e amarelo da bandeira brasileira.

Bolsonaro teve de explicar a declaração de seu filho Eduardo (deputado federal mais votado da História do país) de que “bastava um cabo e um soldado” para fechar o Supremo Tribunal Federal, o que reforçou as críticas de que sua candidatura representa um risco à democracia. Também recuou, uma a uma, de algumas de suas principais propostas, da criação de um superministério que uniria Economia e Desenvolvimento à fusão das pastas de Agricultura e Meio Ambiente. A partir de certo ponto, decretou um “cala-boca” entre seus aliados.

Haddad, depois de uma semana recolhido para traçar a estratégia da reta final, tentou lançar uma “frente democrática” de vários tons do espectro político, com Fernando Henrique, Marina Silva e Ciro Gomes, mas fracassou. O ex-presidente rejeitou Bolsonaro, mas não declarou apoio ao petista, assim como Ciro, que voltou da Europa na véspera do segundo turno para dizer que não daria seu voto. Marina, que terminou em oitavo, com um milhão de votos (1% do total), declarou suporte, ainda assim “crítico”.

A principal boa notícia foi a declaração de voto, na véspera da eleição, do ex-ministro Joaquim Barbosa, antigo algoz dos petistas no escândalo do mensalão.

Pela primeira vez em 29 anos, não houve debates na TV entre os candidatos no segundo turno, por razões declaradas de saúde e de estratégia de Bolsonaro, que ainda se recupera do atentado à faca em Juiz de Fora.

O candidato do PSL se comunicou apenas por “lives” (transmissões ao vivo), redes sociais e entrevistas em que foi pouco confrontado. O petista, por outro lado, encarou maratona de comícios e sabatinas, na tentativa de reforçar que o adversário fugia do confronto.

As fake news ganharam ainda mais protagonismo, com a acusação de que Bolsonaro recorreu a disparos em massa no WhatsApp para disseminar mentiras contra Haddad. O próprio petista, no entanto, espalhou uma informação equivocada sobre a campanha adversária, quando repetiu, sem checar, a falsa acusação feita pelo cantor Geraldo Azevedo, que disse ter sido torturado pelo general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro.

A vitória de Bolsonaro colocaria um militar (reformado) pela primeira vez na Presidência desde o final ditadura. Um triunfo de Haddad representaria a quinta vitória seguida do PT e a retomada do poder após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Em ambas as hipóteses, o novo presidente assumirá sob forte oposição.

Hoje, terminada a votação e anunciado o vencedor, caberá ao novo presidente expor com clareza seus planos para a economia, a educação, a saúde, a segurança pública e o meio ambiente, deixar para trás os arroubos da campanha e trabalhar para construir um Brasil melhor pelos próximos quatro ano

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