Cícero Cattani
24 abr 2018

Lava Jato contra PP enfraquece discurso do PSDB e PT


“Cida elogiou também a capacidade e o trabalho de Meurer em Brasília. “Lá em Brasília ele é o nosso professor. Uma pessoa que nos passa com ética e dignidade muito conhecimento”. (Blog Fábio Campana, 11 de julho de 2011: Ricardo Barros passa o comando estadual do Partido Progressista ao deputado federal Nelson Meurer. 


Por Roberto Bonin/O Globo

É uma péssima notícia para o PT, que esperava desempenhar sozinho o papel de “vítima” de uma conspiração das elites, arquitetada por procuradores, juízes e a imprensa. Também é fato desalentador para o PSDB, que ficará sem o discurso contra o suposto “revanchismo” de procuradores, juízes e da imprensa, que atacariam os tucanos para compensar a gritaria petista. Depois da prisão do ex-presidente Lula e do cerco judicial contra o senador e réu Aécio Neves, a operação deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Federal, que cumpriu mandados de busca e apreensão no Senado e na Câmara, mostra que o alvo da Lava-Jato e do Judiciário agora é o PP.

Não bastasse ter seu presidente nacional, o senador Ciro Nogueira (PI), investigado ao lado de seu braço-direito, o deputado Dudu da Fonte (PE), por suspeitas de recebimento de milionárias propinas – e, a novidade de hoje, obstrução de Justiça –, será do PP o primeiro político investigado na Lava-Jato a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos dias. Como o GLOBO publica nesta terça, o decano Celso de Mello liberou para pauta da Segunda Turma o caso do deputado paranaense Nelson Meurer, ex-líder do partido na Câmara ( Foto de Meurer com Cida e Ricardo Barros na posse dele no PP-PR) – denunciado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro –, que teria embolsado milhões do esquema de corrupção que saqueou a Petrobras.

As investigações da Lava-Jato já mostraram que Meurer e alguns de seus colegas figuravam como clientes do “money delivery”, o serviço de distribuição de propina em domicílio, criado pelo doleiro Alberto Youssef. Políticos do PP também teriam feito fortuna nos contratos superfaturados do Ministério das Cidades, ainda hoje comandado pelo partido.

Sócio majoritário do petrolão – os investigadores descobriram que havia uma espécie de consórcio entre o PP, o PT e o PMDB no esquema –, o PP desfrutou como poucos do caixa bilionário daquela que já foi a maior estatal do país. Segundo os cálculos dos procuradores da Lava-Jato, o partido teria embolsado sozinho R$ 358 milhões no esquema.

A exemplo de Meurer, Ciro Nogueira e Dudu da Fonte foram denunciados ao Supremo por organização criminosa no inquérito conhecido como “quadrilhão” do PP, que investiga esses desvios. Desde o início da Lava-Jato, dezenas de parlamentares do partido foram citados por delatores e tornaram-se investigados por envolvimento nos mesmos casos de corrupção.

Primeiro político a fazer uma delação no caso, o ex-presidente nacional do PP Pedro Corrêa confessou que começou a embolsar recursos públicos ainda nos anos 1970, no extinto Inamps, e admitiu ter recebido dinheiro desviado de quase 20 órgãos do governo. Parceiro de Corrêa no primeiro governo Lula, o ex-deputado José Janene, que foi líder do partido na Câmara e morreu em 2010, era um dos cabeças do mensalão, primeiro grande escândalo da era petista no poder.

Dezenas de políticos do partido também fazem companhia ao PT, PSDB e PMDB – e tantos outros de outras siglas – no escândalo da J&F. Com tantos e tão variados escândalos de corrupção pendurados no PP, não deixa de ser simbólico que o partido ocupe no atual governo alguns dos ministérios mais importantes e tenha sido um dos grandes beneficiários da janela partidária, quando ganhou sete deputados e passou a ser a segunda maior bancada da Câmara, com 53 parlamentares. O noticiário político-policial, como se vê, promete.

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