Cícero Cattani
22 jun 2018

“Fui vítima de conluio entre Youssef e advogado”, diz Gleisi


Gleisi Hoffmann disse que, no processo em que foi inocentada, foi vítima de um “conluio” entre o doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato, e seu advogado, Figueiredo Basto, responsável por vários acordos de colaboração no âmbito da operação, e apontado por receber valores mensais para “proteger” algumas pessoas. “Esses dois são figuras carimbadas no Paraná, mas mesmo assim prevaleceu a voz deles. Fizeram seis versões sobre o meu caso”.


Katna Baran, O Estado de S.Paulo – A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) disse nesta quinta-feira, 21, que passou por um processo de desconstrução de sua imagem nos últimos quatro anos e que merece um pedido de desculpas. “Quem é que vai me pedir desculpas por tudo que aconteceu?”, disse a petista em entrevista coletiva para falar sobre o assunto, em Curitiba.

Segundo Gleisi, o processo teria começado com a revelação da delação premiada que citava seu nome e durou até o julgamento da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que nesta semana inocentou ela e o ex-ministro Paulo Bernardo das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro em um dos processos da Operação Lava Jato.

“Quem vai reconstituir os anos que eu tive de desconstrução da imagem pública, as ofensas que a minha família recebeu e que eu recebi? Não tem como recolocar isso”, questionou. “Foi uma ação cotidiana de desconstrução da imagem por agentes do Estado, pela mídia e opositores políticos. Foi muito difícil, eu não tinha o mesmo espaço para me defender. A desconstrução é difícil de apagar”, disse. A petista afirma que esse foi um dos motivos que a levou a desistir da cadeira no Senado e tentar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições 2018.

Gleisi disse ainda que, no processo em que foi inocentada, foi vítima de um “conluio” entre o doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato, e seu advogado, Figueiredo Basto, responsável por vários acordos de colaboração no âmbito da operação, e apontado por receber valores mensais para “proteger” algumas pessoas. “Esses dois são figuras carimbadas no Paraná, mas mesmo assim prevaleceu a voz deles. Fizeram seis versões sobre o meu caso”, apontou.

Na coletiva, a senadora também criticou duramente a atuação do Ministério Público Federal e da própria Justiça Federal do Paraná, na qual há, segundo ela, “alto nível de politização”. “As pessoas não podem agir dessa forma, investidas nos cargos que têm, da autoridade que têm e sair numa posição afoita de fazer justiçamento e cometer barbaridades. Isso diz respeito à vida das pessoas, de instituições, de grupos. Tem que ter responsabilidade”, disse.

A senadora não descartou a possibilidade de abrir uma representação contra o União diante da sua absolvição. “Não posso tomar (medida judicial) contra o Ministério Público, que teria vontade de tomar, para que eles, enquanto categoria, pagassem pelo prejuízo. O Estado brasileiro que tem que pagar pelo dano causado pelo agente estatal que estava investido de poder. Vou pensar muito nisso porque qualquer ação que eu tome vai recair sobre o povo brasileiro e não quero que o povo pague nenhuma conta”, alegou.

A presidente do PT se disse aliviada com a decisão do STF e repetiu que a acusação era toda baseada em delações premiadas. “(A absolvição) colocou o processo penal nos trilhos novamente. Não se pode condenar ninguém sem provas e não se pode condenar alguém apenas com delações”, declarou, afirmando que o STF deu um “duro recado às indústrias das delações”.

A senadora vê que a decisão sobre o seu caso e o recente entendimento do STF de proibição de uso das conduções coercitivas – instrumento largamente utilizado na Lava Jato – podem ajudar na defesa de outros acusados, como do ex-presidente Lula, preso desde abril. “O Supremo foi muito forte nesse recado, de não aceitar as delações como base para condenações. Isso é muito importante e dá ao Ministério Público e à Polícia Federal uma responsabilidade imensa de não fechar delações de qualquer jeito para incriminar as pessoas ou fazer os inquéritos andarem. Tem que fechar as delações, mas produzir provas”, afirmou.

(Foto: Dida Sampaio/Estadão)

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