Cícero Cattani
05 out 2018

Entrevista. Para Ibope, clima de desinteresse pela eleição foi revertido; 1º turno não é impossível


Márcia Cavallari afirma que a polarização entre Bolsonaro e o PT trouxe o eleitor para o debate político. Possibilidade de primeiro turno  é baixa, mas não impossível. Bolsonaro teria que crescer muito e em poucos dias no Brasil inteiro para levar no primeiro turno. É importante dizer que segundo turno é nova eleição e começa do zero.   


Por Silvia Amorim, O Globo – 

SÃO PAULO – Desinteresse eleitoral em baixa e a influência de canais alternativos para a comunicação com o eleitor são apontados por Márcia Cavallari, diretora executiva do Ibope , como as duas maiores surpresas desta eleição. Números das pesquisas desmentem as previsões de que em 2018 o eleitor se afastaria do debate eleitoral e faria um voto de protesto. Para ela, a polarização chamou o brasileiro para o debate.

Houve algum movimento do eleitorado no primeiro turno que tenha surpreendido os pesquisadores?

– Eu destacaria o índice de desinteresse na eleição. Quando a campanha começou, tínhamos um índice recorde. Em maio de 2018, 42% declaravam não ter nenhum interesse pela eleição. No mesmo período de 2014, eram 30% e, em 2010, 22%. Nas primeiras pesquisas deste ano, 29% diziam votar branco e nulo. À medida que a campanha foi começando, esse índice baixou para 11%. O que esses números mostram é que a eleição começou com um clima de desinteresse acima do patamar histórico, mas foi revertido. Atribuo a mudança à polarização da campanha.

Antes da campanha houve previsões de que essa eleição teria recorde de abstenções. Esse cenário se mantém?

– A abstenção a gente ainda não sabe. Neste ano, há um complicador para essa análise que foi o cadastramento biométrico de eleitores. Certamente a abstenção vai ser menor nos municípios que tiveram o recadastramento porque diminui o número de eleitores que estavam na base da Justiça mas tinham morrido ou estão morando em outra cidade. Em relação ao voto branco e nulo, já não dá para dizer hoje que haverá um aumento, como também se previa.

Houve muita especulação de que essa eleição seria parecida com a de 1989, que elegeu Fernando Collor. Isso se confirmou?

– Acho que muito pouco. Em termos de semelhança, temos o número grande de candidatos que levou a uma pulverização de votos. Mas a discussão era outra. Aquela eleição tinha o apelo contra os marajás e a grande preocupação das pessoas era com a inflação.

Mas Bolsonaro representa a mudança, assim como Collor representou naquela eleição. Há semelhança entre esses dois eleitorados?

– Não. O voto no Collor era muito mais forte entre os menos escolarizados e de menor renda. A força do Bolsonaro está no outro extremo. É curioso que, na eleição de 1989, o perfil do eleitor do Lula era o de maior escolarização e renda, como o do Bolsonaro agora.

Nas últimas eleições, foram os eleitores de menor renda e menos escolarizados que elegeram o presidente. Esse padrão pode ser interrompido este ano?

– É uma possibilidade porque a força do Bolsonaro é muito grande junto a esse eleitor mais escolarizado e de maior renda. Era um eleitor do PSDB, mas não com tanta intensidade. Bolsonaro tem 51% dos eleitores que ganham acima de 5 salários mínimos. No início da campanha, ele tinha 35%. Apesar desse segmento representar pouco no conjunto do eleitorado, a força pode ser tão grande dele junto a esse eleitor que pode sim levá-lo a uma vitória. Ele começou com apoio de 29% dos que têm ensino superior e tem 41% agora.

Qual a probabilidade da eleição acabar no 1º turno?

– Ela é baixa, mas não impossível. Bolsonaro teria que crescer muito e em poucos dias no Brasil inteiro para levar no primeiro turno. É importante dizer que segundo turno é nova eleição e começa do zero. Muita coisa influencia como o próprio resultado do primeiro turno e a coligação de forças políticas em torno dos candidatos.

Se o cenário atual se confirmar, o 2º turno será entre Bolsonaro e Haddad. Nunca houve disputa com candidatos com tão alto índice de rejeição. Que tipo de disputa esperar?

– Vamos ter um segundo turno duríssimo que se traduzirá numa guerra de rejeições. A disputa vai se dar nessa seara.

Pelo alto índice de rejeição, podemos ter um 2º turno com recorde de votos brancos e nulos e abstenções?

– Podemos, sim. Nas simulações que a gente faz hoje, os votos brancos e nulos já se apresentam em patamares maiores do que no 1º turno.

A facada em Bolsonaro se mostrou decisiva para o atual cenário eleitoral?

– Podemos dizer que foi depois da facada o primeiro crescimento mais significativo dele nas pesquisas e, diferente do episódio da morte do Eduardo Campos em 2014, ele não perdeu mais esse eleitor como aconteceu com a Marina naquele ano.

Está em discussão o poder da propaganda na TV nesta eleição . O que as pesquisas mostram sobre esse tema?

– Essa é uma grande questão desta campanha. A rede social este ano teve um papel bem mais importante e acho que o crescimento do Bolsonaro vem daí. Claro que Bolsonaro teve um exposição gigantesca na mídia após a facada, mas ele vem se mantendo. Precisamos entender que os usuários de internet e redes sociais cresceram muito nos últimos anos. Não dá para ignorar esse canal como um instrumento de comunicação com os eleitores. Em 2013, tínhamos 100 milhões de usuários de internet, em 2017 foram 130 milhões. O número de pessoas com smartphone subiu de 30 milhões para 168 milhões. Usuários de WhatsApp saltaram de 20 milhões para 120 milhões desde 2014.

É possível dizer que a TV perde o protagonismo na eleição?

– Não, porque, quando a gente pergunta qual a fonte de informação que o eleitor mais utiliza para decidir o voto, “notícias na TV” aparece em primeiro lugar, seguida de debate com os candidatos e conversas com amigos e familiares. A internet é um novo canal, mas ainda tem baixa credibilidade. O eleitor fica preocupado e tem consciência das fake news. O que vemos é que nas redes sociais os candidatos falam mais aos convertidos. Não é espaço fácil para buscar votos, mas sim para consolidar voto.

Nova pesquisa Ibope será divulgada no sábado. O que devemos prestar a tenção nesse levantamento?

– Se teve movimentação dos candidatos, especialmente dos que não estão na liderança. Isso pode mostrar se haverá onda de voto útil se formando na véspera da votação.

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