Cícero Cattani
30 ago 2017

Depoimento. Uma passagem com Nêgo Pessoa

Por Benedito Pires, de Brasília 

Há algum tempo sem contato com Carlos Alberto A. Pessoa (como ele assinava), sua morte surpreendeu-me. O maldito câncer, disseram. Mais um amigo que se vai, outro motivo para espaçar as idas a Curitiba.

Com todas as diferenças (suaves, cavalheiras divergências) a literatura e o futebol foram um elo. E o jornalismo.

A última vez que o vi, Nêgo Pessoa estava entusiasmado: lera, enfim, confidenciava (e disse que não sabia porque não o fizera antes) Dom Quixote. Devolvi-lhe uma lista de grandes livros que também não lera, a começar por Moby Dick, e aproveitava para sugerir outro livro de Herman Melville, Bartleby, o escrivão, relançado no Brasil pela Cosac Naify em uma magnífica edição.

Tive o privilégio de conviver com o Pessoa em redações de jornais. Por exemplo, no falecido Diário da Tarde, do grupo Gazeta do Povo. (Dr.) Francisco da Cunha Pereira pretendia relançar o jornal. Participei do projeto. Inicialmente, a ideia era começar com uma edição às segundas, para depois torna-la diária.

Essas edições às segundas foi um grande sucesso. Chegamos ao que se considerava impossível: competir com a Tribuna (às segundas).

O Diário apoiava-se em um tripé: futebol (e outros esportes), polícia e reportagens especiais. O Marcos Batista, o Casemiro Linearth e eu éramos responsáveis pelas reportagens. Dispúnhamos das páginas centrais e, se necessário, de mais uma página para as nossas matérias. Enfim, de duas a três páginas completas por semana, o sonho de qualquer repórter. E participávamos da definição da pauta.

Pois bem, o Pessoa foi contratado para fazer parte da equipe. A tarefa dele: dar títulos às matérias de esporte e fazer as chamadas de capa. Simplesmente isso, editar o futebol. Nada mais.

Ele chegava à redação, na praça Carlos Gomes, lá pelas 20 horas de domingo, recebia o maço de matérias e começava a trabalhar. Eu entregava a minha matéria mais cedo, mas não ia embora antes de ler, em primeira mão, os títulos do Nego Pessoa.

Os títulos e as chamadas eram incomuns. Havia referências a filmes, a peças teatrais, a livros, a fatos históricos ou do cotidiano, sem que isso “elitizasse” os textos.

Um divertimento e tanto. O dito esporte das massas sofisticado pela criação do Nego Pessoa.

O inusitado é que o Pessoa não ia aos estádios ver os jogos, não os via pela tv ou ouvia pelo rádio. Isso não tinha importância. Os títulos e as chamadas é que contavam, o jogo não. Como Nelson Rodrigues, ele também considerava o vídeo tape burro.

Quando o jornal passou à circulação diária, desapareceu aquela edição das segundas. Celso Nascimento que era o secretário de redação, depois de algum tempo, saiu para trabalhar em Londrina. Com a saída do Celso, o projeto desandou.

Desencantados, o Pessoa, o Martim Vaz, o Casemiro Linearth e eu, que fazíamos parte da redação, fomos conversar com o (dr.) Francisco. Afinal, queríamos saber se o projeto havia soçobrado ou seria retomado. (Dr.) Francisco ficou indignado com a ousadia de repta-lo. Nada nos restou que o pedido coletivo de demissão, o que deixou o patrão ainda mais furioso.

Nunca mais os títulos do Pessoa. Nunca mais as suas chamadas descerimoniosas, inesperadas.

Domingo à noite, na redação do Diário da Tarde, na praça Carlos Gomes, como o retrato de Itabira também dói

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