Cícero Cattani
06 jun 2018

Delação de Fanini revela relação promíscua entre os poderes

O dinheiro da Assembleia Legislativa –   o total do valor a ser devolvido ao Estado seria de R$ 230 milhões – era repassado à Secretaria da Fazenda com aval dos presidentes da Casa. Num dos cheques simbólicos de “resto de caixa”, no valor de R$ 110 milhões, era nominal  “ao povo do Paraná“. Segundo Fanini, houve propinas de  R$ 600 mil  para  Plauto Miró, R$ 400 mil para Ademar Traiano e R$ 460 mil para Valdir Rossoni 

 Com informações do G1 Paraná

O ex-diretor da Secretaria de Educação do Paraná Maurício Fanini afirmou na proposta de colaboração premiada entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR) que aditivos pagos à construtora Valor, em contratos com o governo estadual, passaram por uma tramitação “atípica”.

A RPC e o G1 tiveram acesso exclusivo ao documento entregue aos procuradores. Até esta terça-feira (5), a acordo não havia sido assinado.

Fanini foi preso pela Operação Quadro Negro, que investiga desvios de verbas que deveriam ser usadas na construção e reforma de escolas estaduais. A estimativa do Ministério Público do Paraná (MP-PR) é a de que a fraude tenha ultrapassado o montante de R$ 20 milhões.

Réu em três ações criminais relacionadas à operação, Fanini está detido na carceragem da Polícia Federal (PF) em Brasília desde maio deste ano.

Conforme o relato de Fanini para a PGR, essa tramitação atípica foi referendada pela Procuradoria-Geral do Estado.

Segundo o ex-diretor, a Procuradoria-Geral do Estado afirmava em todos os pareceres que não havia irregularidades nos processos de aditivos para as licitações da construtora Valor.

A Valor está no centro da Operação Quadro Negro. O dono, Edurado Lopes, tem acordo de colaboração homologado pela Justiça.

Há investigação em tramitação também contra Durval Amaral, conselheiro presidente do TCE-PR, no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O esquema investigado apontou que os desvios milionários ocorreram entre 2011 e 2015. O estado pagava a empresa por obras que mal saíram do chão. Para isso, eram usadas medições falsas das obras para liberação de recursos.

Segundo o ex-diretor da Secretaria de Educação, existia uma relação direta entre a construtora Valor, de Eduardo Lopes de Souza, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) – dois Poderes que têm também como função a fiscalização dos recursos públicos.

Fanini relatou ainda que O dinheiro da Assembleia Legislativa seria repassado à Secretaria da Fazenda do Paraná, com aval dos “presidentes” da Casa Valdir Rossoni (PSDB) e Ademar Traiano (PSDB).

Fanini afirmou que, no fim de 2014, foi chamado na Assembleia Legislativa pelo deputado Plauto Miró (DEM), primeiro secretário da Assembleia, para tratar de aditivos nas licitações vencidas pela construtora Valor.

O deputado teria informado a Fanini que a Mesa Executiva da Assembleia Legislativa realiza uma espécie de economia do valor que o governo estadual repassa, ou seja, havia disponibilidade do Legislativo custear os aditivos.

Ainda conforme o relato de Fanini, Plauto Miró disse que o valor a ser devolvido ao caixa seria de R$ 230 milhões.

Segundo Fanini, as relações entre poderes ficaram mais evidente para ele após esta reunião com o deputado.

O estado chegou a pagar R$ 6 milhões em aditivos para as obras da empresa Valor.

O ex-diretor da Secretaria de Educação Maurício Fanini afirmou que o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano (PSDB), pediu R$ 500 mil a empreiteiros que prestavam serviços para a Secretaria de Educação do Paraná.

Fanini disse que o pedido aconteceu em julho de 2014, num evento na sede do PSDB. O deputado estadual Ademar Traiano, de maneira intimidatória teria dito: “fale com o Eduardo, da Valor, e com Denílson, da Talento, e diga para eles me arrumarem 250 mil reais, cada um, porque eu vou ser o próximo presidente da Assembleia Legislativa e eles vão precisar de mim”.

Fanini afirmou que, sem pedir autorização para o governador, cumpriu o que o deputado havia dito. No documento, Fanini afirmou ainda que Eduardo Lopes de Souza, o dono da construtora Valor, confirmou ter repassado R$ 150 mil para o deputado, e Denílson R$ 100 mil.

Em outro trecho, Fanini disse que Eduardo Lopes de Souza comentou com ele sobre as contribuições para campanhas dos deputados Plauto Miró (DEM), Ademar Traiano (PSDB), Valdir Rossoni (PSDB) e do então candidato Tiago Amaral (PSB), filho do presidente do TCE-PR, Durval Amaral.

Na delação homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no fim do ano passado, Eduardo Lopes de Souza disse que fez repasses que somaram R$ 600 mil a Plauto Miró, R$ 400 mil a Ademar Traiano, R$ 460 mil a Valdir Rossoni através de um assessor do deputado, e R$ 50 mil a Tiago Amaral (PSB).

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