Cícero Cattani
02 set 2017

“Com esses R$ 32 milhões a gente faz a campanha do Beto”


Delator da Operação Quadro Negro revela como agia o então diretor da Secretaria de Educação do Paraná, Maurício Fanini  (foto com Beto Richa no Caribe)  para arrecadar recursos supostamente destinados à candidatura do tucano ao governo do Estado


Por Luiz Vassallo, Julia Affonso e Fábio Serapião/O Estado de S. Paulo /

O dono da Construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, afirmou, em delação premiada, que em 2013, um ano antes das eleições, foi chamado pelo então diretor da Secretaria de Educação do Paraná, Maurício Fanini, e ouviu dele que era necessário que ganhasse o ‘maior número de obras que conseguir’ para ‘arrecadar dinheiro para a campanha do governador Beto Richa (PSDB) em 2014’. Alvo da Operação Quadro Negro, que apura desvios na pasta, o empreiteiro confessou crimes à Procuradoria-Geral da República e seu acordo de delação está pendente de homologação junto ao Supremo Tribunal Federal.

A delação do empresário foi obtida pela reportagem da RPC (afiliada da TV Globo) no Paraná e confirmada pelo Estadão.

Segundo o executivo, Fanini era responsável por indicar os descontos que ele deveria dar em licitações para construção e reformas de escolas com o fim de ganhar os contratos e realizar pagamento de propinas. Ele revelou, em acordo com a Procuradoria, que parte dos valores desviados abasteceu a campanha de Richa.

“Em meados de 2013, o Fanini me chamou na Secretaria e falou “ganhe o maior número de obras que você conseguir porque nós precisamos arrecadar dinheiro para a campanha do governador em 2014”. ele me passou uma planilha em papel com todas as obras que seriam licitadas pelo governo, com informações sobre o estágio de cada um dos processos licitatórios. Ele falou “vamos focar nas obras que tenham convênio federal, pois o dinheiro já está na conta do estado”. Disse também que não era pra eu pegar obras com recursos unicamente do estado porque não tinha dinheiro e viraria uma “novela”.

O delator relata que monitorou licitações que iam abrindo e, quando aparecia um edital que interessava à empreiteira, participava.

“assim, a primeira licitação que teve nessa sistemática foi a da escola Lysímaco Ferreira da Costa, em rio Negro, Paraná. Eu conversei com o Fanini e ele me disse para dar um desconto entre 25% (vinte e cinco por cento) e 29% (vinte e nove por cento), para poder ganhar. eu dei o desconto de 28% (vinte e oito por cento) e saí vencedor. O contrato da Lysímaco foi assinado no final do ano de 2013, na mesma época em que eu venci as licitações dos colégios William Madi, Arcângelo Nandi, Jardim Paulista, Ribeirão Grande e Tancredo Neves”, contou.

Souza diz ter sido orientado a fazer medições ‘como se já tivesse sido executado 25% da obra’ e que Fanini se encarregava de fazer as antecipações de medições, ‘mesmo sem a obra ser executada, como forma de arrecadar dinheiro para o caixa da campanha do governador’. “Ele não especificou valor, ele disse assim: “Vamos alimentar a campanha do governador”. Eu decidi apostar. Eu pensei: “Eu tenho o aval do governador, o Beto não perde a eleição”. A conversa era: “agora não podemos deixar faltar dinheiro””.

O empresário relata que, ao prestar contas, a Valor teria de encaminhar ‘as medições como se estivesse cumprindo rigorosamente o contrato, mesmo sem as obras terem sido executadas, que o governo pagaria a empresa do mesmo jeito’.

A partir do momento em que entrou nos supostos esquemas de desvios, o empreiteiro relatou ter custeado gastos dos agentes públicos envolvidos, como a própria secretária do ex-diretor da secretaria, a quem disse ter chegado a pagar US$ 1 mil para bancar uma viagem a Miami.

Outra funcionária que teria recebido propinas seria Marilane Aparecida Fermino Silva, a Mari. “No total eu entreguei quase R$ 200 mil para a Mari. Numa única vez eu levei R$ 90 mil para ela, logo após eu receber o aditivo do colégio Amâncio Moro (ela ajudou a destravar a liberação do aditivo que estava parado há vários meses). Ela disse que esse dinheiro tinha a ver com a quitação do apartamento dela, alguma coisa assim, junto com a Sueli. Ela me mostrava as cartas do Serasa cobrando ela”.

O delator também relata sobre tratativas que fazia com o diretor da pasta a respeito da campanha de Beto Richa (PSDB).

“O Fanini me mandava fazer as medições pois não podia faltar dinheiro para a campanha. Ele disse “com esses R$ 32 milhões a gente faz a campanha do Beto”. Esse valor de R$ 32 milhões era a soma dos contratos, já incluído o valor dos aditivos, que ele já tinha garantido que sairiam. o Fanini dizia que nenhuma medição de qualquer obra da Sude era autorizada por ele sem que tivesse pagamento de propina”, relatou.

O delator ainda disse à Procuradoria que ‘Fanini determinou que não fosse alimentado o sistema simec, de fiscalização federal, e colocava dados falsos no sistema estadual’.

“Na obra do colégio Lysímaco Ferreira da Costa, em Rio Negro, Paraná, o fiscal Lauro foi afastado pelo Fanini porque não queria assinar as medições falsas, tendo colocado em seu lugar o fiscal Evandro Machado, que já era do esquema. Eu sei que os fiscais que concordavam em assinar as medições falsas eram, além do Evandro, os engenheiros Bruno, Ângelo e o Mauro.”

“Quando começou a ficar com muita discrepância, esses engenheiros começaram a ficar constrangidos, menos o Evandro, que sempre “bancava” as medições. o Fanini tinha prometido para o Evandro que ele assumiria o cargo de diretor da engenharia da Fundepar, quando ele fosse o presidente.”

“O Fanini dizia que o que a gente precisasse da engenharia era para falar direto com o Evandro. O Fanini comentou comigo também que sabia que o Evandro, paralelamente, tinha uns esquemas próprios com umas obras menores e fazia vista grossa. Em relação aos outros engenheiros o Fanini dizia que quem estava ajudando seria recompensado em termos de cargos, mas não deu detalhes.”

Comentários

  • eleitor | 03 set 2017

    Está explicado porque os que trabalharam nas campanhas do beto ficaram de fora do governo

  • penitenciário | 03 set 2017

    Eleitor, se vc trabalhou na campanha, bem feito , pois parece que vc não tem nenhum dos milhares de cargos em comissão, pagos com nosso dinheiro de servidores; grana essa afanada do paranáprevidencia !

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