Cícero Cattani
05 jul 2017

Aécio diz que foi vítima de trama e defende Temer

O Globo

Num discurso de 20 minutos na volta à tribuna do Senado, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que nunca cometeu os crimes que justificaram o seu afastamento do mandato pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Aécio lembrou o artigo da Constituição que dá aos parlamentares a imunidade de palavra e voto e disse que seu erro, no caso do grampo com o delator Joesley Batista, dono da JBS, foi ter se deixado envolver por uma “trama ardilosa” e deixar que seus familiares servissem “de massa de manobra” para um criminoso com mais de 200 crimes e que pegaria até 2.000 anos de cadeia.

Evitando o tom político e ataques a Janot, Aécio disse, entretanto, que misturar nas investigações da Lava-jato atos ilícitos com a atividade parlamentar, “confunde a tudo e a todos e não ajuda ninguém”.

O tucano disse, ainda, que o período de afastamento foi marcado por sentimentos de indignação “com a injustiça” e de tristeza pelos fatos que atingiram “os que mais amamos”.

— Quero reiterar aqui: não cometi crime algum, não aceitei recurso de origem ilícita, não prometi ou ofereci vantagem indevida, ou atuei nesse sentido. Fui vitima de uma armadilha engendrada por um criminoso confesso mais de 200 crimes, que seria condenado a mais de 2 mil anos de cadeia — disse Aécio.

ACUSAÇÃO DE PROPINA

Aécio rebateu acusações de Joesley Batista dizendo que “nunca teve vantagens financeiras através da política”. O tucano justificou sua afirmação dizendo que, por meio da irmã Andrea Neves, que foi presa em maio, ofereceu um apartamento da família para venda, que já havia sido oferecido antes a quatro empresários, tentando se desfazer de parcela de seu patrimônio familiar.

— Não teve contrapartida, como mostram gravações e ficará cabalmente comprovado na Justiça. Como pagar propina se não teve benefícios? — disse Aécio.

O tucano se defendeu dizendo que, nas acusações da Procuradoria-Geral da República (PGR), sua atividade como senador foi criminalizada. Lembrou que seu afastamento do mandato foi justificado por Janot por ter discutido, numa conversa privada, “criminosamente gravada”,sobre a aprovação de uma lei de abuso de autoridade, aprovada por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça e por larga maioria no plenário.

Afirmou também que foi punido por fazer referência à sua posição de que a proposta de criminalização do caixa 2 deveria ser aprovada como uma das 10 medidas do Ministério Público contra a corrupção, mas só ter efeito depois aprovação.

— Nada mais do que a opinião de um parlamentar no exercício de seu mandato, que foi interpretada como tentativa de obstrução da Justiça — disse Aécio, completando que no dia que não puderem mais exercer o direito ao contraditório, terá se perdido o direito à liberdade:

— A Constituição garante a imunidade parlamentar por palavras e votos, que o mandato soberano não seja ameaçado, que a independência dos Poderes seja mantida e não se constranja o exercício parlamentar — disse Aécio.

DEFESA DE TEMER

Aécio também defendeu o presidente Michel Temer, que na sua opinião continua no comando das reformas que justificaram o apoio ao PSDB a seu governo. O tucano pediu que Temer reconsidere a decisão de não conceder aumento para o programa Bolsa Família.PUBLICIDADE

— Retorno com o firme propósito de continuar trabalhando para ajudar o Brasil a superar suas imensas dificuldades, apoiando o ousado programa de reformas, que é o motivo de nosso apoio ao governo, que apesar de todas as dificuldades, continua sendo tocado pelo presidente — disse.

Sem citar a atuação da PGR e do presidente Michel Temer, Aécio disse que o país assiste a uma guerra em que os maiores prejudicados serão os mais vulneráveis, aqueles “que mais precisam”.

— Será sempre através da boa política, da tolerância, que vamos encontrar um novo caminho para os brasileiros — disse.

Ele começou o pronunciamento dizendo que retornava a tribuna com sentimentos contraditórios, que mostravam a profundidade das marcas que o seu afastamento e a prisão da irmã, Andrea Neves, deixaram nele e na sua família, pelos “julgamentos apressados”.

— Em nenhum instante perdi a serenidade e o equilíbrio, próprias daqueles que sabem a exata extensão de seus atos — disse Aécio.

ELOGIOS A TASSO

Aécio também relembrou sua atuação pelas Diretas Já, pela aprovação das atribuições do novo Ministério Público como é hoje, o legado institucional construído quando presidiu a Câmara, o pacote ético que reformulou o conceito de imunidade parlamentar, e sua “responsabilidade” como governador, que ao fim de dois mandatos, teria colocado Minas Gerais no topo do ranking da educação básica e eficiência no serviço de saúde acima da média nacional.

— Sempre atuei na defesa dos interesses públicos, defesa do patrimônio público, busquei sempre estar ao lado das boas causas, sempre respeitando a ética e respeitando os votos que recebi em quase 10 eleições disputadas — disse.

No discurso Aécio elogiou a conduta de Tasso Jereissatti como presidente interino do PSDB, e disse que, como presidente PSDB “inúmeras vezes” levantou sua voz em defesa Lava-Jato.

— O livre exercício do mandato parlamentar, não serve apenas a mim, serve a História. Fui condenado previamente sem defesa, fui execrado na opinião pública, julgado aqui nessa Casa por alguns, mas não carrego mágoas, ressentimentos, trabalho para construir o futuro não para destruir o passado — disse Aécio.

SENADORES DO PT DEIXAM PLENÁRIO

Avisados de que não seria possível fazer apartes ao discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG), os senadores do PT decidiram deixar o plenário durante a fala do mineiro. O líder do partido, Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou que a bancada não ficaria servindo de plateia para Aécio, sem poder questioná-lo.

— Decidimos deixar o plenário porque não haveria espaço para apartes. Como podemos ouvi-lo discursar agora sem questioná-lo, depois de tantas acusações que ele fez contra o PT. Mas vamos tentar interpelar o senador ao final da ordem do dia, já que o presidente Eunicio já iniciou a sessão antes de podermos falar — afirmou Lindbergh.

O discurso de Aécio foi acompanhado de dentro do plenário pelos caciques do PSDB, como Tasso Jereissati, José Serra e Cássio Cunha Lima, além de deputados do partido, como o líder Ricardo Trípoli (SP), Bruna Furlan, Daniel Coelho (PSDB-PE), Silvio Torres (PSDB-SP) e Domingos Savio (PSDB-MG) e Danilo de Castro (PSDB-MG).

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O deputado Miro Teixeira (Rede-RJ), também foi ao Senado assistir ao pronunciamento. Após discursas, Aécio recebeu tímidos e rápidos aplausos dos correligionários e foi cumprimentando senadores e deputados que estava no plenário.

Antes de discursar no plenário, Aécio almoçou com senadores do PSDB. Ele informou aos correligionários que não pretende reassumir neste momento a presidência nacional do partido. Candidato presidencial do partido em 2014, Aécio se afastou do comando da legenda um dia após o GLOBO revelar que ele havia sido delatado por Joesley Batista e teria recebido R$ 2 milhões do empresário em espécie.

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