Cícero Cattani
05 jun 2018

Quadro Negro: A delação bomba que pode detonar Richa


Ex-diretor da Secretaria de Educação do Paraná diz que pagou com propina gastos de campanhas e despesas pessoais de Beto Richa entre 2002 e 2015. RPC e G1 tiveram acesso a uma proposta de colaboração premiada feita por Maurício Fanini à Procuradoria-Geral da República (PGR)


Por Erick Gimenes, José Vianna, Diego Ribeiro, Rodolfo May e Carolina Wolf, G1 PR, Curitiba

O ex-diretor da Secretaria de Educação do Paraná Maurício Fanini afirma ter intermediado pagamentos de propina para o ex-governador Beto Richa (PSDB) entre os anos de 2002 e 2015.

As declarações foram documentadas em uma proposta de colaboração premiada feita à Procuradoria-Geral da República (PGR) em dez anexos, obtida com exclusividade pela RPC e pelo G1. Até esta terça-feira (5), o acordo ainda não havia sido fechado.

Segundo o ex-diretor, o dinheiro abasteceu as campanhas de Richa para a Prefeitura de Curitiba e para o Governo do Paraná, além de bancar gastos pessoais como viagens e a compra de um apartamento para o filho mais velho de Beto Richa, Marcello Richa.

Richa nega tudo e fala em “manobra arquitetada às vésperas do período eleitoral”.

Fanini foi preso duas vezes pela Operação Quadro Negro, que investiga desvios de verbas que deveriam ser usadas na construção e reforma de escolas estaduais. A estimativa do Ministério Público do Paraná (MP-PR) é a de que a fraude tenha ultrapassado o montante de R$ 20 milhões.

Réu em três ações criminais relacionadas à operação, Fanini está detido na carceragem da Polícia Federal (PF) em Brasília desde maio deste ano.

Maurício Fanini diz que Beto Richa passou a cobrar propina em 2001, quando era vice-prefeito da capital paranaense. À época, Fanini era diretor de Pavimentação de Curitiba, indicado por Richa, de quem diz ter se tornado amigo muito próximo desde a faculdade de engenharia, em 1983.

A primeira oferta de propina a Richa, afirma o ex-diretor, foi feita por Eron Cunha, dono da construtora Empo, por meio de um aditivo indevido de R$ 100 mil em uma obra de pavimentação no bairro curitibano do Cajuru, ainda em 2001.

Após ser apresentado a Eron durante uma viagem a Foz do Iguaçu, Richa negociou a propina e acertou que o dinheiro seria entregue em espécie para seu chefe de gabinete à época, Ezequias Moreira, conta Fanini.

No entanto, o pagamento não foi concretizado porque o aditivo foi reprovado pelo secretário de Obras da época, Carlos Scalco, cuja postura era “rígida e ética”, conforme o ex-diretor.

Maurício Fanini afirma que Beto Richa passou efetivamente a abastecer campanhas eleitorais com dinheiro de caixa 2, em 2002, quando concorreu pela primeira vez ao governo estadual e perdeu para Roberto Requião (PMDB).

O dinheiro partia de empresários, por meio de aditivos e percentuais de contratos com a Prefeitura de Curitiba. Conforme o relato, o recebimento era sempre negociado por Ezequias Moreira e Luiz Abi, primo de Beto Richa.

O ex-diretor diz que, com a derrota, diante de muitas dívidas, Richa ordenou, por meio de Abi, que fosse arrecadado mais dinheiro, com urgência. Sem conseguir atender à exigência, Fanini afirma que foi exonerado da Secretaria de Obras, em maio de 2003.

Fanini conta que, dois meses depois, ao ser chamado à festa de aniversário de um dos filhos de Richa e ouvir do amigo o pedido para esquecer os problemas passados, passou a arrecadar mais propina, agora para a campanha de Beto à Prefeitura de Curitiba, em 2004.

Segundo Fanini, Beto Richa seguiu recebendo arrecadações de empresários durante o mandato na prefeitura, entre os anos de 2005 e 2011, até a eleição ao Governo do Paraná.

Em 2012, com a eleição de Richa ao governo, Fanini ganhou um cargo na Secretaria Estadual de Educação. No mesmo ano, conforme o relato, houve a primeira conversa entre ele e Beto Richa sobre doações de campanhas enquanto governador.

Chamado à Granja do Canguiri, a residência oficial do governo do estado, em Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba, Maurício Fanini afirma que foi questionado por Richa sobre a possibilidade de arrecadar dinheiro de empresas para a campanha de reeleição de Luciano Ducci à Prefeitura de Curitiba, ainda em 2012.

Segundo Fanini, Richa disse, com muita naturalidade, que deveria ser feita uma arrecadação mensal com prestação de contas exclusivamente para o governador. Disse também ter ouvido de Richa que ele poderia separar uma parte para o próprio sustento.

As arrecadações, a partir daquele momento, passaram a ser mensais, segundo Fanini.

De acordo com Fanini, o dinheiro era deixado por intermediadores no banheiro de uma sala da Superintendência de Desenvolvimento Educacional (Sude) e depois levado para a casa dele, onde permanecia guardado até ordem do governador. Quando exigidos, os valores eram repassados a Luiz Abi.

Um dos maiores colaboradores do caixa 2, de acordo com o ex-diretor, era Eduardo Lopes de Souza, dono da construtora Valor, a quem foi apresentado por Valdir Rossoni (PSDB), que atualmente é deputado federal.

A construtora Valor é apontada pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) como pivô dos desvios de mais de R$ 20 milhões de obras de construção de reforma de escolas estaduais, entre 2011 e 2015.

O crime ocorria mediante o pagamento de recursos por medições fraudulentas feitas pelos fiscais de obra, segundo a investigações da Operação Quadro Negro.

Outras empresas com contratos com a Secretaria Estadual de Educação também contribuíram para abastecer o caixa 2, diz o ex-diretor.

Os repasses seguiram normalmente até um domingo chuvoso de abril de 2014, relata Fanini, quando ele diz ter sido convidado pelo governador para uma partida de tênis.

Segundo ele, Richa pediu mais dinheiro para a campanha de reeleição.

Eduardo Lopes de Souza, da Valor, mais uma vez foi o principal colaborador, relata Fanini. O empresário entregou R$ 250 mil em troca da antecipação de faturas das obras de escolas, “pois ganharia tempo para construir”.

O valor foi recebido por Fanini e, segundo ele, entregue ao empresário Jorge Theodócio Atherino, da RF Participações, homem escolhido pelo governo para receber as colaborações para a campanha de 2014.

Beto Richa foi de fato reeleito e, para comemorar, convidou Fanini, Atherino e outros empresários para uma viagem de 20 dias aos Estados Unidos e ao Caribe, de acordo com o ex-diretor da Educação.

Fanini conta que, em um fim de semana de janeiro de 2015, ele e Richa foram ao balneário de Caiobá, no litoral paranaense, acompanhados pelas esposas.

Em uma caminhada na areia da praia, diz o ex-diretor, o governador pediu que as arrecadações junto aos empresários continuassem para abastecer três campanhas nas eleições de 2018: a dele, para o Senado, do irmão, Pepe Richa, para deputado federal, e do filho Marcello, para deputado estadual.

Em depoimento à Justiça Estadual, o empresário Eduardo Lopes de Souza afirmou que, em 2015, fez três repasses de R$ 100 mil para cada uma das três campanhas citadas por Fanini.

Eduardo Lopes tem acordo de delação premiada, homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Quadro Negro.

Maurício Fanini afirma que as primeiras denúncias do esquema de fraude na construção de escolas surgiram em 2015, quando o Ministério Público do Paraná pediu esclarecimentos à Secretaria de Educação após receber denúncia anônima.

Fanini diz que falou ao governador e ao então secretário estadual de Comunicação Deonilson Roldo sobre a investigação do MP-PR e, daquele momento em diante, os dois passaram a “escanteá-lo”.

O ex-diretor diz que, logo após ser denunciado pelos procuradores estaduais pela Operação Quadro Negro, foi ao Palácio das Araucárias – prédio do governo do estado – para tentar falar com o governador.

Ele conta que se deparou com Richa desesperado, apagando fotografias e mensagens do celular.

Dois meses depois, Fanini diz ter sido avisado pelo procurador Sérgio Botto de Lacerda de que seria preso – como de fato foi, em 21 de julho.

O ex-diretor afirma que, depois da libertação, já exonerado do governo, procurou de novo o governador dizendo que não poderia ficar sem salário. Richa, então, ainda conforme Fanini, indicou dois nomes para auxiliá-lo: Beto Freire, dono da empresa Rocha Top, e Jorge Atherino, da RF Participações.

Ao procurá-los, Fanini relata que passou a receber R$ 12 mil por mês como “forma de mesada para que permanecesse em silêncio” até o início de 2017, quando o valor caiu para R$ 8 mil.

Ele diz que explicava que não queria dinheiro, mas um novo emprego, e ouviu “inúmeras promessas de atividade profissional” que não eram cumpridas. Para ele, era uma tentativa de Atherino e Richa para tê-lo “na mão”.

Fanini foi preso novamente em 16 setembro de 2017, no apartamento dele, no bairro Cabral, em Curitiba, depois de virar réu pelo crime de lavagem de dinheiro. Por segurança, foi transferido para Brasília no fim de fevereiro.

Comentários

  • Mato | 05 jun 2018

    Sempre soube que esse playboy arrogante estava envolvido em corrupção
    cara de pau
    se o povo paranaense votar nele atesta que tem bandido de estimação e q a raiva de corrupção é pretexto para culpar o PT de tudo

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